Café com Chai

Observações de uma brasileira sobre a cultura indiana.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Olá!

Como estão?? Há alguns dias não atualizo o blog, e para quem costumava escrever diariamente, faz muita diferença. Sinto como se estivesse meses sem aparecer por aqui. 

Acontece que estou num dilema comigo mesma. Não tenho tido muita inspiração para escrever, até tenho assunto, mas tenho tantas coisas na cabeça que não consigo me dedicar nem em uma coisa e nem em outra. 
Fico pensando "estou pesquisando e escrevendo no blog mas preciso fazer tantas outras coisas.." aí as horas passam e quando vejo o dia passou voando e eu não fiz tudo o que eu queria. Não me sinto tão produtiva o quanto eu era antes, talvez seja a hora de pisar no freio e mudar a lista de prioridades. 

Eu estava dependente da internet, mas não sou uma pessoa que vive de internet, por isso preferi dedicar mais tempo em outras coisas fora do blog e relaxar. Admiro aqueles que conseguem mostrar até o que comem no café da manhã fazendo disso uma profissão mas eu não tenho  paciência para fazer o mesmo.  Eu gostaria, já pensei em abrir canal no youtube, já pensei em abrir página no Face..já pensei em tantas coisas e tantos assuntos, mas sabe quando o cérebro não descansa? Me sinto assim. E mesmo quanto ao blog ou instagram, não consigo descansar a mente, sempre que vejo algo penso que dará um ótimo post quero dividir tudo mas ao mesmo tempo penso nos outros afazeres e isso tem me deixado doida até com um sentimento de culpa por não me dedicar a outras coisas como deveria. 

Estou num dilema, escrevo ou não escrevo. Tiro umas férias da internet ou continuo. 

Então, não estranhem minha ausência pois farei uns dias de teste para ver se consigo aumentar minha produtividade, fazer meu dia render e ver onde é que preciso melhorar. 

Beijos!!




sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Por que sou contra o movimento de Apropriação Cultural no Brasil

Como casada com indiano sikh, quero deixar meu recado a respeito do movimento no Brasil que aborda o uso do turbante sempre que falam sobre "apropriação cultural". 

A visão que outros povos tem do turbante não é a mesma que o movimento impõe no Brasil. Justamente por esse motivo, o movimento brasileiro "esvazia" o significado dele nas outras culturas como se somente os negros tivessem o direito e usá-lo no Brasil. Sou a favor do respeito, concordo que o turbante não é moda, mas não sou a favor de regras fundamentadas na cor da pele. Cultura é uma coisa, cor da pele é outra.

 Como o Café com Chai é pioneiro sobre  cultura Punjabi em português,  me sinto na liberdade de me expressar e mostrar como esse movimento  está tomando o caminho errado. 

O que não falta na internet são os vídeos sobre apropriação cultural e o maior exemplo de todos é o uso do turbante como símbolo de resistência Negra hostilizando o uso de tal elemento pelas pessoas brancas.
Os argumentos que os ativistas usam são sempre os  mesmos: "negro é isso e branco é aquilo".

"Apropriação cultural ocorre quando o opressor pega elementos de um povo oprimido e muda seu significado. Exemplo disso é o uso do turbante como item fashion pelos brancos" .

O turbante não é exclusividade de um povo

Já u 
Turbante indiano - Sikh
Dread e turbante não são elementos exclusivos de pessoas negras. E vocês que defendem a "apropriação cultural",  querem colocar  na cabeça das pessoas que é somente um símbolo de resistência negra, quando o significado não é o mesmo para todas as culturas e nem no Brasil.

Deixo claro que respeito a luta e o significado que o turbante tem para a cultura negra no Brasil, mas não é certo  generalizar o significado de um elemento que não é exclusivo da tonalidade da cor da pele, afinal, quantos de nós brasileiros somos descendentes de negros mesmo não aparentando? Vejo uma enorme confusão, pois cultura é uma coisa e cor da pele é outra. Não é a tonalidade da melanina que dirá a qual cultura a pessoa pertence. Todos que nascem dentro de uma cultura, tem direito de segui-la independentemente do tom da pele e nós brasileiros, temos cultura e  hábitos totalmente diferentes dos africanos e asiáticos.  Por isso não justifica a segregação pelo uso do turbante baseada no tom da pele.

Até a forma de amarrar o turbante muda de uma cultura para a outra então por que tentam dominar algo que não é exclusivo?

Estão  se apropriando de um símbolo de outras culturas fazendo as pessoas no Brasil acreditarem que o turbante só pertence ao movimento negro. Isso já está virando extremismo e são esses que ditam regras que mais cometem a chamada "apropriação" pois querem instituir a força e opressão no lugar da liberdade e diversidade com o "eu posso e você não".

Falam tanto de "apropriação cultural", mas se não mudarem a postura, os apropriadores serão vocês mesmos). Não  preciso "avisar", xingar ou humilhar uma pessoa na rua como vejo "emponderadas" fazendo e tampouco gravar vídeos com os nervos à flor da pele.

Vocês, do "movimento" no Brasil, estão generalizando o significado de turbante para símbolo de "resistência negra " quando  um turbante não significa apena isso,  então o que o movimento no Brasil  também está cometendo "apropriação cultural" pois outros povos também são minoria e também sofrem perseguições ( exemplo disso são os refugiados no Brasil, e povos de culturas que também usam turbantes).

Mas os ativistas impõem somente o que o turbante significa para o "movimento negro", o que não é certo.

Minorias no Brasil são ignoradas pelo "movimento"

O turbante indiano Sikh representa a força para proteger as minorias e os mais fracos. E que bela contradição temos no Brasil quando vejo pessoas ligadas ao movimento ignorarem as minorias e os mais fracos!

Vou explicar por quê: Uma vez considerei o uso do turbante pelos indianos e a resposta que me deram é que a cultura indiana não é conhecida no Brasil, não vivemos a cultura indiana por isso eles não significam nada nessa luta. Que vergonha!!

Gostam de falar de preconceito? Vejamos o que um indiano de turbante passa aqui no Brasil. Veja o que realmente é minoria no nosso país. E pensar que já ouvi dizerem que não devemos nos preocupar com as culturas minoritárias no Brasil! Onde está a empatia de que falam tanto? Então só porque no Brasil a cultura negra é maior do que a indiana ou árabe devemos oprimi-los?

Quando meu marido chegou no aeroporto do Brasil tirou o turbante. Ano passado um amigo dele apanhou (de pessoas do alto escalão) porque usava turbante sendo que nem português falava para se defender. Assim  que esse amigo chegou em São Paulo, tirou o turbante, cortou o cabelo e a barba para não ser mais agredido.

Então, entenda de uma vez por todas que isso é ser minoria, isso é viver o Preconceito. Isso sim é ser oprimido, é viver onde existe uma comunidade pequena e não ter quem te represente. Mais uma vez, onde está a empatia com as minorias? Quando passamos por cima dos mais fracos não nos tornamos os opressores?  

Não  importa quantas pessoas são seguidoras da cultura indiana no Brasil, não importa se a cultura indiana é conhecida no nosso país ou não.

Meu marido não usa turbante no Brasil para não sofrer perseguições religiosas, assim como a maioria dos indianos no Brasil então  sem essa conversa de que quem usa turbante é visto como "macumbeiro". Vocês  não sabem o que é ser chamado de "terrorista" por causa de um turbante e não ter nenhuma comunidade disposta a te defender porque o argumento que eles usam é "mas no Brasil não temos a cultura árabe nem a indiana.." 

 As pessoas no Brasil não sabem o que é um turbante Sikh e confundem com terrorista.  Veja como existem  pessoas e culturas que  sofrem muito pelo uso do turbante e nem por isso geram ódio na internet como os "ativistas".  

O movimento no Brasil não faz ações humanitárias e não age pela igualdade

Sempre vejo o movimento no Brasil realizando uma disputa de egos: "eu posso e você não".

Querem  mudar  a forma como o turbante é visto? Aprendi muito com os indianos coloque  um turbante na cabeça e vá fazer caridade, pois só a caridade engrandece. Não adianta colocar um turbante e fazer vídeo toda nervosinha ou nervosinho e jogar no youtube.

Junte a comunidade, esqueça a cor da pele e vá às ruas fazer o bem como esses indianos, que usam o turbante há muito mais tempo do que vocês brasileiros que usam turbante fazem!! Aliás, eles usam o turbante de geração em geração desde crianças! E vocês do movimento no Brasil só descobriram o gosto pelo turbante agora.
De resistência, o mundo está cheio.  














O "movimento" não trabalha pela inclusão social

 Mostre que quem usa turbante é do bem. Deixe o seu amigo ou vizinho sentir como é usar um turbante, e ver que não tem nada de errado nisso. As pessoas precisam de informação. A comunidade indiana Sikh faz em vários países o Sikh Turban Day onde convidam a população para conhecer o turbante e sentir a experiência de usar um.
Por que não vemos algo parecido feito pelos ativistas do Brasil ?







Contradições entre o que o "movimento" apoia e o significado do turbante 
nas outras culturas

O que muitos ativistas brasileiros usam na cabeça não passa de um pedaço de pano porque um turbante de verdade não  representa o ódio nem o rancor. Turbante não representa o egoísmo.



Ele  representa união, fé, respeito, e o principal: HUMILDADE,  justamente o que a maioria da internet não  mostra.
Antes de ser "rainha" ou ter sua "coroa", seja humilde pois diante de Deus somos todos iguais. Aí sim o que você usa na cabeça será chamado de turbante.
A luta que o turbante representa é uma luta justa para proteger os mais fracos. Não é uma briga de ego como vejo na internet.

O turbante indiano fora do Brasil 

Curioso que muitos países que também não tiveram influência indiana ou árabe em sua cultura ( Nova Zelândia, Canadá, Estados Unidos) pensam diferente de nós. 

Os indianos conquistaram o uso do turbante em profissões de destaque dos órgãos do governo americano, canadense, britânico etc. trazendo as pessoas para perto deles, mostrando que um turbante significa paz e amizade.  
A polícia de New York tem policiais de turbante. O exército canadense e americano também. E essa conquista não foi através de vídeos com ódio e segregação como vocês do movimento fazem. Eles foram inteligentes!




Policial indiano de New York com turbante







Eu gostaria que no Brasil  as pessoas pudessem sair com seus turbantes nas ruas mas o que eu vejo é o contrário, vocês que inventaram essa coisa de apropriação cultural. 
Vocês, do movimento,  só pensam no próprio umbigo e na cor da pele mas não lutam pela conscientização da sociedade, só geram ódio e divisões de cor e raça.

Sou a favor sim de lenços inspirados em turbantes e da propagação dele pois somente a maioria vence. Enquanto  o uso de tal elemento for minoria, ele continuará sendo mau visto pela nossa sociedade.

Não é certo dizer que o turbante é símbolo de resistência negra, quando não é esse o motivo pelo qual outras pessoas usam e não deve satisfações a ninguém sobre os motivos.

Vocês, do movimento, deveriam ser os primeiros a respeitar os outros significados do turbante, tranças e afins e deixar as pessoas livres para usarem o que quiser! O problema não é apropriação cultural e sim o racismo. Devemos  combater o racismo e não "elementos" de cultura pois o mundo não gira somente em torno de UMA cultura, não somente da SUA, não somente da MINHA.

As redes sociais estão saturadas de vídeos cheios de ódio e  preconceito.  Quem está  mudando o significado do turbante é o próprio "movimento".


 O que é  um símbolo de união e humildade está sendo usado  por pessoas  orgulhosas, arrogantes, presunçosas, cheias de ódio e rancor na internet tentando mostrar a supremacia. 

Conclusão: O movimento não faz distinção entre ego e causa
A evolução vem  de dentro. E antes de querer mudar o mundo, comece por você  mesmo. O movimento a favor do turbante no Brasil ainda tem muito o que aprender, crescer e evoluir e no sentido literal da palavra, tirar o ego da cabeça.


Encontrei um vídeo sensato:



Abraços

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Quando passei a enxergar a minha cultura

Já houve um tempo em que eu achava que brasileiro não tinha cultura. Sempre achei nosso jeito de ser meio bagunçado, uma mistura de culturas e por isso cada um vivia de um jeito. Sempre admirei a cultura oriental, em especial a indiana. Parece que eles tem tudo escrito numa cartilha e seguem à risca e isso me fazia pensar, erroneamente, que nós não temos nossa própria cultura e estilo de vida.

Conviver com outra cultura (como a indiana) fez eu abrir os olhos para a minha e vi o quanto mantemos nossas tradições, nosso estilo de vida que não nos diminui.

Nós temos o costume de dizer "bom dia", "boa tarde" e "boa noite" ao encontrarmos alguém. Para os indianos isso é muito formal e não é usado no dia-a-dia.

Temos nosso próprio jeitinho de tomar café da manhã: pão com manteiga, café com leite, suco, vitaminas, iogurte. Os indianos comem parontha (pão indiano com batata, pimenta etc), iogurte, lassi, chai.

O Natal ainda é o feriado mais celebrado em nosso país. O Natal na Índia não tem tanta festa, nem é feriado como aqui.

Nós comemoramos o ano novo do calendário gregoriano com muita festividade. Os indianos não comemoram 31 de dezembro com a mesma euforia que a nossa ou não tão em família como fazemos. Os homens saem às ruas para beber então não é comum as pessoas saírem com a esposa e filhos para ver uma queima de fogos na rua.
O ano novo deles é do calendário hindu (calendário lunar) e seria o Diwali. Aqui no Brasil temos várias superstições, gostamos de vestir branco, amarelo, cada cor corresponde a uma energia. Muitas pessoas gostam de passar o ano novo na praia, pular ondas, outros comem lentilha.. Temos os pratos típicos de natal e ano novo como peru, arroz com passas, panetone, e champanhe. Na Índia não é assim.  No Brasil é a época que as famílias viajam, se encontram, os amigos convidam para jantar ou almoçar com eles. A pessoa pode nem ser cristã, mas entra no clima de final de ano.

Você já deve ter ouvido falar que os indianos são "muito família". Mas se pensarmos bem, nós também somos mesmo diante do caos que vive nossa sociedade. Temos Dia das Mães, é muito comum as pessoas almoçarem na casa das mães.
Temos Dia dos Pais, época que os restaurantes estão lotados pois muitos gostam de levar o pai para jantar. Dia das Crianças, que apesar de ser uma data muito voltada ao sentido "comercial" não deixa de celebrar a alegria dos pequenos.
Também temos o Dia dos Namorados, que inspira o romance e renova a paixão entre os casais. Na Índia, Dia dos Namorados é praticamente inaceitável.
Eles tem algumas datas que também comemoramos aqui como o Dia dos Pais e das Mães, mas comemoram de um jeito mais tranquilo.
Diante disso, chego à conclusão de que também somos "família" ou pelo menos lutamos pela manutenção dela.

Tem também o famoso churrasco onde as pessoas levam comes e bebes, colocam uma churrasqueira na calçada e curtem o final de tarde. Na Índia não tem disso não.

E por último, gostaria de citar o que eu mais gosto no nosso Brasil e não é tão comum em países do Oriente: o badalar de um sino de igreja.
Sempre admirei o famoso "chamado para oração" que as pessoas gostam de colocar na internet. Mas com o tempo passei a admirar aquilo que está presente no nosso dia-a-dia e não damos valor porque parece tão comum. O badalar de um sino que se mistura ao som de automóveis e barulhos de uma cidade grande. Como me sinto bem ao ouvir o sino de uma igreja! Claro que existem igrejas na Índia, mas não em todos os bairros como temos aqui.

Então é isso, temos nossas tradições, nossos costumes. Confesso que antes eu não enxergava desse jeito.

Admiro muito a cultura indiana mas não posso ignorar a cultura brasileira e desprezá-la. Nenhuma cultura é perfeita. Onde a brasileira falha, a indiana complementa e vice-versa. As culturas nunca podem ser analisadas individualmente. Cultura não se divide, se agrega.

Abraços!!!