Café com Chai

Observações de uma brasileira sobre a cultura indiana.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Vai trazer o gringo? Minha experiência.

Eu me lembro de quando fazia planos para o meu marido vir para o Brasil. Eu sabia que era difícil mas não tinha noção da proporção dessa dificuldade. Na minha cabeça tudo se resumia em ter paciência e conseguir um emprego para o marido, afinal moramos em SP e com tanta gente e tantas empresas eu pensei que conseguiriam algo para ele. 

Mas não foi bem assim. Quando ele chegou, estávamos com os olhos e o coração blindados no amor, na paixão, aquela coisa de adolescente (apesar de já passarmos dessa idade) que não vimos os obstáculos que estariam por vir. O primeiro "baque" que sentimos foi a dificuldade para marcar o casamento. Primeiro porque ele não era católico então as igrejas não queriam aceitar de jeito nenhum. Segundo, cartório, sempre colocava um problema nos documentos. 

Gastamos um dinheirão traduzindo tudo do inglês para o português. Isso porque o tradutor juramentado é nosso amigo e fez um preço camarada. Mas imagine para um casal que está iniciando a vida a dois e sem estabilidade financeira! É realmente uma quantia considerável e que faz diferença no bolso.

Depois a taxa de cartório que saiu uns 300 reais, fora as cópias de documentos.

Mais tarde as taxas da Polícia Federal, cópias e mais cópias de documentos. Tudo isso sem falar no transporte, muita gasolina, muito bilhete de metrô, muita sola de sapato. Sem contar os dias que fazíamos nossas refeições na rua mesmo porque eu estava fazendo um curso e nosso tempo estava corrido.

Tudo isso foi desgastante, exaustivo para nós dois. Eu não tinha nem tempo de me cuidar direito com nervoso de fazer tudo em 2 meses dentro do visto dele, porque depois disso o cartório não marcaria o nosso casamento. Depois de tudo isso fiquei sabendo que ele poderia pedir prorrogação do visto uma vez ou pagar uma multa caso ele permanecesse aqui depois do prazo. Mas eu não sabia disso e corri atrás de tudo igual uma doida. 

Valeu a pena, mas foi desgastante. Ainda tinha gente fazendo piadinha dizendo que talvez o casamento não estava bom porque eu mudei até na aparência, havia emagrecido, mas gente, imagine você passar por tudo isso e ainda ver o marido sem emprego. As pessoas não entendem como é difícil para um estrangeiro se estabelecer aqui de maneira legal. É muita burocracia. Fico imaginando uma pessoa sem emprego querer trazer um estrangeiro pra cá. Os dois vão pro fundo do poço. 

Como diz meu marido "o dinheiro fala". Se você tiver $ dá pra seguir em frente, mas se não tiver $ nem um pão com manteiga vocês vão comer então imagine arcar com os gastos de tanta burocracia sem falar nas despesas pessoais? Não estou dizendo que tenho $ sobrando, estou longe disso, mas uma boa parte dos gastos só foram para documentos, sem falar na mobília da casa, contas de água, luz, internet, gás etc É necessário planejar e juntar $. Pra falar a verdade nem planejando e nem juntando as coisas saíram no script. Muita coisa aconteceu também fora do planejado, como a viagem repentina dele para a Índia por motivo familiar e todo mundo sabe o preço de uma passagem para a Índia $$. Mais uma vez o dinheiro só saía do bolso e não entrava. E pra arrematar o kit eu fiquei desempregada na época. Então imagine juntar isso com marido desempregado num país totalmente estranho para ele e sofrendo com a perda do pai. 

Depois de publicado o deferimento do pedido de permanência dele no DOU nos sentimos mais aliviados. Mas não ficou nisso..toda hora pediam o RNE (Registro Nacional de Estrangeiro, o equivalente ao RG do estrangeiro) dele para estudar em faculdade, cadastros e muitas vezes não queriam aceitar o protocolo e o tal do RNE que não chegava nunca. 

Fizemos a carteira de trabalho que demorou uns 10 dias para ficar pronta e isso foi um grande passo para nós. Ele se sentia alguém aqui no Brasil. Foi um orgulho para ele. Mas o mais importante ainda não vinha: o tão sonhado emprego. 

Fizemos o cartão do SUS, tudo o que ele tem direito nós fizemos.

Abrimos conta no banco, para ele ter um comprovante de endereço no nome dele, apesar de muitos bancos exigirem comprovante de residência no nome dele, RNE, comprovante de pagamento, bla bla bla..conseguimos com muito custo abrir uma conta quando ele conseguiu um trabalho. Todo mundo sabe que é muito difícil abrir uma conta no banco sem emprego. 

Nem preciso falar que o português até esse momento era quase zero.

Finalmente, depois de um ano e meio saiu essa bendita carteira chamada RNE. O português está melhorando e continuamos na luta.

É engraçado, quando olho para trás e lembro de toda a correria e estresse para a documentação, casamento, burocracias, vejo que aquilo não era nada e eu me estressei à toa! Porque a maior dificuldade vem depois: adaptação, português e procura pelo emprego. Isso sim é estresse e se os dois não forem pessoas determinadas e forem influenciáveis será difícil manter a relação. Porque além da frustração do marido desempregado, o mau humor dele, discussões, os pitis dele beirando a ataques de fúria e ainda tem o zé povinho que gosta de desestimular, criticar, dar risada da nossa cara. Sim, esse tipo de gente existe.

Durante todo esse processo tive que aguentar muita coisa, opiniões dispensáveis de gente que mais queria se intrometer do que ajudar, frustração do marido por estar desempregado, eu estava desempregada...muita coisa mesmo. Isso foi muito mais difícil do que a parte da documentação pois para isso não tem segredo..é só seguir o que pedirem e pronto.  A vida real é muito mais difícil do que a papelada.

Só falo uma coisa, não espere ajuda de ninguém. Não estou falando de família. Estou falando de emprego, amizades..ninguém vai ser tão legal a ponto de "dar emprego" e nenhum amigo vai querer ser seu psicólogo. Mesmo se você precisar de uma indicação, é você quem deve correr atrás e se esforçar pois indicação não é garantia de nada. Já ficamos esperando meses por uma resposta, ao final conseguirmos por indicação, depois explico como foi isso e não foi nada fácil, mas espero conseguir algo melhor.

Não espere que tudo saia bonitinho ou que alguém venha te explicar como deve ser feito, quais documentos vocês precisam, etc etc. Lembre-se de que nesse procedimento o marido estará totalmente dependente de você. É você quem deve fazer tudo e se virar nos 30 até ele se adaptar e conseguir um emprego. Pelo menos, na minha experiência foi assim que aconteceu, ele ficou mais de um ano desempregado e por mais de um ano eu tive que me virar nos 30 pra não deixar ele entrar em depressão. 


Beijos















5 comentários:

  1. Gracas a Deus td deu certo!!!!.Isso se chama AMOR....Bjss felicidades.

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  2. Resumiu perfeitamente o que eu escrevi em dezenas de posts tambem, é isso mesmo, uma eterna luta.

    Bj

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  3. Fico feliz e estimulada ao ler os posts de gente mais experiente que eu no assunto. Com certeza, quando há perseverança e o desejo de lutar juntos por um sonho, o mundo fica pequeno. Um grande abraço e que Deus continua abençoando a vida do casal.

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  4. Excelente post, tb estou planejando um desse pro blog!! estamos ainda nessa luta só te digo uma coisa : não está fácil...... mas vamos lá

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  5. Queria ser assim, mas desisti e sofro bastante ate hoje.

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