Café com Chai

Observações de uma brasileira sobre a cultura indiana.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

A beleza está nos olhos de quem vê

Dia nublado e um frio aconchegante só me lembra a época que eu passava horas e horas conversando com meu marido na internet, a xícara de café quente sempre na mesa do computador me fazia companhia. E ele lá do outro lado do mundo sentindo a brisa da noite de primavera enquanto se aquecia com uma xícara de chá. E foi assim por três anos, que mais pareciam uma eternidade, uma vida até que pudéssemos beber nosso café e nosso chá juntos.

Durante todo esse tempo pouca coisa eu sabia sobre a cultura daquele homem que me inebriava com aquela beleza exótica, traços marcantes, cabelos negros, sobrancelhas grossas e a forma de falar em forma de poesia. Palavras que eu nunca havia escutado ou lido antes, palavras que para mim só existiam nos filmes da década de 50 ou poesias de Olavo Bilac. 

Por um momento a insegurança bateu forte. Algo que pulsava dentro de mim e agonizava minha alma. Eu me sentia diferente de todos, estranha, afinal não fazia parte daquele mundo ao qual ele estava acostumado a ver, eu não tinha aqueles lindos cabelos longos e negros que davam graça àqueles olhos amendoados que muitas vezes se escondiam por trás de um véu. Eu também não tinha aquela pele cor de canela que contrastava com o colorido dos sáris. 

E eu pensava, como pode? Será que vão gostar de mim? Será que vão me aceitar? Nessas horas qualquer palavra errada é um tiro certeiro e sempre existe alguém disposto a acertar o alvo. Comecei a escutar "nunca te aceitarão", "você é muito diferente deles", "eles não gostam de estrangeiros".
Mas não permiti que me atingissem e corri, corri desesperadamente das palavras negativas e incertezas.

Desde então me aceitei do jeito que eu sou, com a cor de cabelo que tenho, com a cor da pele que tenho, do jeito que sou. Percebi que eu não precisava ser igual a todos para uma única pessoa gostar de mim. Não precisava da aprovação de todos se somente a aprovação de uma única pessoa me bastava. Então arrisquei esse amor com todas as minhas forças sem mudar um fio de cabelo do que eu ainda sou e aceitei em ser a "estrangeira", a "estranha", perante aquela sociedade enclausurada em seu conservadorismo.

Quando conheci minha nova família aqueles fantasmas desapareceram. Nunca vi tanto amor! Nunca vi tanta curiosidade e aceitação. Nunca me senti diferente e até hoje não sei o que é ser diferente. Toda aquela insegurança com a aparência só estava na minha cabeça e só atingia a mim mesma. Eu não me tornei "uma estrangeira" como muitos diziam que seria. Me tornei membro da família.

As diferenças somos nós que criamos e podemos viver livre delas se nos libertarmos de qualquer preconceito. Quando a gente se aceita do jeito que é, o outro passa a nos aceitar também. 

Quando a gente ama, a gente aceita e quando a gente aceita, a gente ama. A beleza vem da alma, do amor que carregamos dentro do peito.



Abraços!


5 comentários:

  1. Porque quando o amor é verdadeiro não há limites, diferenças ou fronteiras só o sentimento faz com que todas as barreiras sejam vencidas, pois aquilo que é escrito por Deus ninguém pode apagar. Admiro o amor de vocês, que Deus continue os abençoando ainda mais, felicidades eternas'

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  2. OI, Star!!!Amei o depoimento! No inicio, alguns membros da familia dele (alguns homens) estavam contra o nosso relacionamento, justamente porque na vizinhanca havia um cara que tinha casado com uma russa e, no verao, ela ficava andando de bicicleta com shortinho e top, o que, claro, causou um escandalo em Uttar Pradesh. Mas, quando eles me conheceram de verdade e viram que eu era tao ou mais conservadora do que eles, eles me aceitaram muito bem e hoje, gracas a Deus, eu realmente faco parte da familia. Um abraco e que Deua abencoe todos os casais!

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  3. Salam, Star!

    o seu relato é sincero e emocionante. Lindo!
    Um beijo

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